sábado, 31 de outubro de 2009

Livros livros são

Dizem que o bom livro é aquele que mexe com a gente. E ontem meu irmão foi me mostrar um livro incomum. Trata-se de Dois Palitos, do criativo Samir Mesquita. O livro acasula-se dentro de uma caixa de fósforos (de verdade) e contém, à maneira de palitos, 50 microcontos de, no máximo, 50 letras. Abri a caixinha. Deixei o livro cair em minha mão, virando-a de ponta cabeça. Abri-o em uma página qualquer e dei de cara com o seguinte microconto:

Taí assunto que Pedro não dominava: Pedro.

Pela forma, não há como negar que o livro de Samir mexe com qualquer um. O mesmo não posso afirmar sobre o conteúdo que, além de não ser extraordinário, mexe muito mais com os Pedros. Ao menos à primeira vista, em minha opinião.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

De Maria



De costas apareceu Maria e vi que dava de coser; roupa das finas com linho bonito, daqueles que vemos na missa. Manga fechada no punho e gola cobrindo nuca, de frente virou Maria. Vi terço, vi patuá, vi que dava de rezar Maria, com as mãos pálidas juntas em frente à saia. Dois passos à frente deu Maria, e eu lá longe vendo a fumaça saindo pela janela. Apaguei o cigarro. Respeito, muito respeito tinha eu por Maria. Era moça bonita, das que não fazem coisa feia da boniteza. Era de família, muita família, irmã, irmão, pai, mãe e outros a compor um lar caloroso. Do fundo de seu aposento, eu via coisas bonitas, a colcha rosa cosida por Maria e velas acesas aos entes queridos. Fumar eu não podia, sei que não podia, coisa profana, coisa fedida, coisa de não-Maria. E viu meu cigarro Maria, avançou dois passos em um deslizar de procissão. O que faria Maria eu não sabia, seus lábios fechados seguravam palavras; meus lábios abertos soltavam fumaça, fumaça que não podia sair. Mais adiante andou Maria, avançou feito animal e postou-se frente a mim. O terço, o patuá, a palavra de Deus, algo em mim seria despejado pela senhorita. “Eu mereço”, pensei, quando Maria em mim encostou. Bati as costas na parede. Maria me olhou, Maria me prensou, Maria ergueu a saia. Maria abriu os lábios e os meus se fecharam, com fumaça e saliva. Deixei de respirar, deixei de pensar, deixei ela vir — deixei vir Maria, de coser, de rezar, Maria de impecavelmente pecar.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Como se não bastasse


Como se não bastasse, na transmissão da partida, Galvão Bueno ter chamado a FIFA de pipoqueira, por ter voltado atrás na decisão de proibir jogos na altitude; como se não bastasse, também na transmissão, Galvão Bueno ter desdenhado da legítima pressão política que levou a FIFA à revogação de sua decisão; como se não bastasse, na mesma lamentável transmissão, o execrável locutor ter descaradamente elogiado Ricardo Teixeira, oligarca do futebol brasileiro, por ter sido o único a não assinar o requerimento pela revogação da decisão da FIFA; como se não bastasse tudo isso, o site da Globo ainda me vem com essa, acima fotografada. Um indecoroso desrespeito à seleção boliviana. E uma total hipocrisia.

Não tenho conhecimento sobre o quão prejudicial a um atleta é jogar na altitude, mas sei que, havendo tempo de adaptação, não há problemas. No lugar de pôr à penitência a população que vive na altitude, proibindo-a de assistir aos jogos de sua seleção, por que então não se remodela o calendário do futebol, para proporcionar à equipe visitante tempo de preparação? Porque mexer em calendário é mexer em dinheiro de gente poderosa. Inclusive da Globo. E daí o Galvão rasga o verbo.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Croniquinha

Coloquei a Caras de lado. Levantei, fui em direção à atendente e lhe ofereci a mão, em aperto. Daí se iniciou minha irritação, pois me senti como se apertasse um sapo. Nunca gostei de pessoas que não apertam a mão direito. “É Melo com um ‘l’ ou com dois ‘ll’?”, perguntou. “Com um”, disse eu, sendo conduzido à sala de raio-x. A mulher era do tipo de gestos leves, das que mostram o caminho com movimentos de balé. Voz fraca e fina, e uma calma nipônica. Quando se tira raio-x da boca, não é bem o que se quer.

Entrei na sala. A tal pediu para que eu ficasse em postura ereta: “Isso, bem retinho”, e encostava a mão em minhas costas, feito uma borboleta. Ajeitei a cabeça, posicionei as pernas e veio a máquina. Coloquei o queixo sobre uma placa metálica. Um tubo veio em direção da minha boca: “Isso, morde bem mordidinho, fica paradinho, é rapidinho”, e saiu da sala. Seus diminutivos em excesso me deram nos nervos e me senti um retardado dentro da sala, sozinho. Voltou. Não tinha dado certo, eu havia me mexido. A mulher teimou que se tratava de minha postura, e quis corrigi-la. Mal sabia ela que eu tremia era de raiva de seus diminutivos, de seus dedos finos, de sua voz de vendedora de lingerie. Ora, boa tiradora de raio-x deve ter cara de câncer!, pensava eu.

“Isso, bem retinho, mas sem tirar o pezinho do chão”. Obedeci. “Agora, abaixa um pouquinho mais a nuquinha”. Obedeci. “Volta o pezinho”, “vai o queixinho”, “olha o calcanhar”, “sem mexer a nuquinha”. Tive um estalo. Por mais irritado que estivesse, por mais atrasado e seduzido pela vontade berrar, eu era ainda lúcido o suficiente para lembrar do ditado: impossível assoviar e chupar cana ao mesmo tempo. Se eu tinha o queixo sobre uma base metálica, não conseguiria levar a testa à frente sem tirar o calcanhar do chão! Fuzilei-a com o olhar e, com a calma dos nervosos, disse: “Tá difícil”, dando a entender que a nuquinha não mexeria sem o pezinho.

A mulher saiu da sala. Pensei que havia ficado brava comigo, mas logo voltou. Finalmente disse que havia dado certo. Sorte dela, aliás. Mais um erro houvesse ocorrido, mais uma mexidinha eu houvesse dado, mais uma ordenzinha de postura da parte dela, e eu armava uma confusão. De verdade, com pancadaria e tudo. Do jeitinho que aconteceu quando, em despedida, ela me estendeu a mesma mão mole e disse: “Obrigadinha”.

sábado, 19 de setembro de 2009

Do fumante, ao fascista passivo

Quão agradável é frequentar um bar onde não há fumaça, ter roupas que não cheiram a fumo e um cabelo que não seja uma bituca de cigarro. A lei aitifumo, para mim que não fumo, é um deleite. Mas sou contra ela. Principalmente da maneira como a implementa o execrável governador de São Paulo, com base a doses de terrorismo. Vejamos dois exemplos: em Campinas, poucos dias antes da lei entrar em vigor, uma ampulheta gigante — com direito a três metros de altura — foi colocada em meio ao Largo do Rosário, em contagem regressiva para a decapitação do fumante; em São Paulo, há painéis eletrônicos pela cidade, informando há quantos meses, dias e horas, o cidadão paulista respira melhor.

O governo, igualmente, estimula o cidadão de bem a denunciar o descumprimento da lei, como nos tempos da ditadura. Mas não quero dissertar sobre o assunto. Prefiro postar dois microcontos de Marco Antônio de Araújo Bueno. Com ironia, eles literariamente expressam minha opinião:

Pandemia de Multa
Saiu pra comprar cigarro. Voltou rapidinho, com medo de tudo.

A Boa Consciência do Porco Fumante
Vendo cidadão tabagista, faço-o ciente do mal: faz-me fascista passivo.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Lançou-se


Não pude estar presente no lançamento, dia 4 de agosto de 2009, mas se lançou a Portal Stalker. Trata-se de uma revista de ficção científica — do que confesso não ser lá muito fã —, que compõe o Projeto Portal. A cada seis meses, publica-se uma revista. Sobre a primeira, Neuromancer, escrevi aqui e aqui. Agora, ainda sem meu exemplar em mãos, anseio por ler a segunda publicação, que me será entregue por Marco Antônio de Araújo Bueno, meu tio e de quem orgulhosamente sou leitor número zero.

Entrem no site do projeto, para saber mais.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Errata

Nem sempre acreditamos no que escrevemos. Quando uma idéia nos bate à cabeça, são as sinapses que nos levam à caneta, fatalmente. De uma frase que cintila em mente — e da sensação de que é boa a frase — pomo-nos a fazer um texto e a enredar uma história com raciocínios externos a nós mesmos. Trata-se de composição alheia que não está alhures.

Aconteceu-me em minha última postagem. Meu braço tocou a escrever quando a frase surgiu em minha mente, e pus-me a compor coisas com as quais discordo. Não que eu não ache belo o português com a falta do plural no substantivo ou com o equívoco gramatical. Somente penso que me comportei como quem, em busca de combater o preconceito racial, diz ser o negro melhor que o branco; como quem diz ser o negro mais belo que o branco, em masturbação à beleza narcisista de seu próprio cérebro. Se nego o preconceito linguístico, devo afirmar é a diversidade. Nela, situam-se tanto o falar certo quanto o errado, dentro de suas respectivas aspas.

Deixo aqui minha autocrítica.

domingo, 6 de setembro de 2009

Blá blá blá

A escrita é outra conversa. Não tem metade do calor humano que tem a fala, é carente de sua espontaneidade bucal. É também diversa — e seus erros são carícias à diversidade —, mas sua originalidade é pensadamente produzida. Por isso é difícil eleger a mais bonita delas. Há os que prezam pela perfeição gramatical e os contrários à ideia. Há os que prezam pela reprodução da fala e os que valorizam um universo próprio.

Talvez me refira mais à literatura do que à escrita ordinária. Mais à escrita talhada do que ao bilhete e ao recado e à rasura cotidianos. Esses têm tanta espontaneidade quanto à fala. Mas faço a diferenciação para dizer o seguinte: se na escrita agimos muitas vezes de caso pensado, na fala devemos soltar a língua à revelia. Se na escrita perfeitamente utilizar a norma culta é uma opção legítima, forçá-la na fala talvez seja por demais artificial e desgostoso.

O bonito do falar é a peculiaridade genuína de cada pessoa. Não gosto dos que dialogam mais com o dicionário do que com o interlocutor humano. Belo é o português de quem nega o plural no substantivo, de quem engata uma palavra na outra e neologisa por fusão. Belo é o português de quem desconhece o dicionário, ironiza o preconceito da língua e fala o que sua terra ordena. Belo é o português gostoso de quem fala com a boca.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Granma: “Um ano de revolução no Brasil”


Clarín: “Kirchner vai ao Brasil em homenagem a Ismo a esmo”


Berliner Zeitung: “Economia entra em recessão no aniversário de Ismo a esmo”


Diário de Coimbra: "Coimbra envia parabéns a Ismo a esmo"


The New York Times: “Obama diz: Yes, they can”


Corriere Della Sera: “Berlusconi proíbe Ismo a esmo na Itália”


Folha de S. Paulo: “Paulista pára e recebe milhares em homenagem a Ismo a esmo”


Jyllands-Posten: “Escandinávia em festa: parabéns, Ismo a esmo”


El País: “Gripe suína mata três em aniversário de Ismo a esmo”

segunda-feira, 17 de agosto de 2009


Foi nessa praça que um dia encontrei um velho. Estava sentado num banco coletivo, usava óculos e cruzava as pernas. Os braços mantinha abertos e sobre o encosto do banco, como quem abraça a pessoa que senta ao seu lado. Sentei. Puxei papo e o velho de súbito retirou seus óculos. Do fundo de sua cratera óssea, fixou com firmeza o seu olhar no meu e me disse: as aparências enganam. E sei bem da veracidade de sua afirmação. Outro dia estive nessa mesma praça e não mais encontrei o velho. De longe, vi em meio aos pássaros uma criança encantadora. Braços miúdos e duas maria-chiquinhas que cobriam as orelhas. Achei fascinante a cena. O branco da pele infantil contrastava com a escuridão das pombas, que se sentiam em vôo quando fitavam os olhos da pequenina. Não titubeei e bati uma foto. Seria a lembrança de um momento sublime, um ser humano em contato com a natureza, pela suavidade ingênua de uma criança. Foi quando a menininha se levantou. Esticou seus dois braços, como quem comemora um gol, e olhou às pombas ao seu redor. Surpreendendo-me, desceu as mãos com rapidez, para soltar um grito gutural: “Sai daí, bando de pombas, sai que eu estou cagando!

domingo, 9 de agosto de 2009

Caras Cartas III

Caro Paulo Salim Maluf,

Quem rouba na política — não há dicotomia, meu caro — mata.

Muito obrigado. Estou em casa nesse momento, escrevendo essa carta. Não fosse a avenida que o senhor inaugurou, as linhas de metrô e os túneis, não fossem todo o cimento e a argamassa que com labuta derramou sobre o próspero solo de São Paulo, eu não chegaria de meu serviço em tempo, para lhe escrever essas palavras. O senhor é do povo, Maluf.

E eu soube da última que lhe aprontou o Ministério Público de São Paulo. Ordenou que você devolvesse, para um tal cofre público, alguns milhões de reais que roubou por aí. Essa história de novo, não é mesmo? Já basta toda a ladainha que se ouve dia a dia, e ainda querem que o senhor devolva seu dinheiro? Só porque ele passeou por paraísos fiscais e fez turismo a dar com pau, até regressar ao seu bolso, como se fosse investimento na (sua) empresa Eucatex? Não entendo porque lhe recriminam. Tem tanto bandido solto por aí, meu caro, mexendo com dinheiro sujo, e quem lava o dinheiro é que é acusado?

Essa sociedade preza mesmo pela inversão de valores. Há trinta anos você mora na mesma casa, dorme com a mesma mulher e é fiel ao mesmo partido. Como se põe você em suspeita? Não entendo. Elegem o Kassab que — já diria a Marta — não é casado nem tem filhos, e enxotam o senhor para um carguinho de deputado federal. E ainda lhe chamam de ladrão! Isso é mesmo um disparate. Deve ser coisa do Quércia, que é um você mal-sucedido. Leve Leite para esse pessoal, meu caro, derrame o líquido sobre o corpo deles, lhes molhando as mãos. Isso resolverá tudo, acredito, e você bem entende desses programas sociais.

De minha parte, farei um ato público em defesa do senhor: Marcha da família, com Maluf, por Deus — não necessariamente nessa ordem. Só não sei se aglutino muita gente. Acontece que outro dia vi um presídio, caindo aos pedaços e abarrotado de pessoas. O negócio precisava de uma reforma. Ouvi falar que por lá todos são malufistas. Esperam que o senhor leve a eles dignidade, leve leite e COHAB, reformando inteiramente o prédio em que residem. Com excelente acabamento interno. E eu tenho certeza que o senhor não faltará com mais esse compromisso, que tem com o povo sofrido de São Paulo.

Pedro (essa assinatura não é minha).

sábado, 8 de agosto de 2009

Caras Cartas II

Caro Danilo Gentili,

Com muita falsidade inicio essa carta, tenho de assumir. Chamar-lhe por “caro” é por demais uma desvergonha de minha parte, já que pretendo classificá-lo como um não-humano, ao longo desse escrito. Não tenho outra opção, entretanto. Essa seção chama-se Caras Cartas, e a desfaçatez, ademais, é a única maneira de falar sua língua. Sei que logra de sucesso atualmente, talvez encha seus bolsos com o salário que recebe, pelo programa que participa. Vejo-o na tevê, perambulando pelas ruas, correndo atrás de pessoas e lhes formulando perguntas, vestindo roupas cumpridas. E pretas. Talvez em luto a si próprio.

Talvez pela ironia que é vestir a cor que veste. Você é racista, sim, não devo postergar a escrita dessa frase. Racista, desde a unha do pé até o fio do cabelo, passando por toda sua pele. E o desígnio de piada que colocou em seu Twitter é razão para que seja processado, sem dúvidas. O racista é um transgressor da natureza humana.

O conjunto da obra, no que se inclui a carta que escreveu em autodefesa, é deplorável. A emenda saiu pior do que o soneto. Além do racismo, meu caro, nela você demonstra outros preconceitos que compõem seu repertório humorístico. Não assume o seu erro, do mesmo modo. Atropela a história, despreza a humanidade e abusa da falácia. Não pretendo, portanto, perder meu tempo com você. Que seja mesmo diminuta essa carta e que eu me abstenha de combater, um por um, os seus argumentos. De passagem, digo somente que você não pode — e muito me orgulha que você me ache chato — chamar um gay de veado, um gordo de baleia e um negro de macaco. Tampouco eu posso. Você é sem-graça, é tudo o que posso dizer. E daí o seu luto a si próprio.

Pedro.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Fora Sarney


O Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) esteve na Avenida Paulista, clamando pelo Fora Sarney. No dia 29 de junho e no dia 1º de agosto. No último ato realizado, eu era um dos sujeitos a entregar panfletos pela atabalhoada avenida, pedindo aos transeuntes para que abaixo-assinassem a petição pela saída de Sarney. Tentava conversar com as pessoas, sobretudo. Era difícil, a pressa é o cartão postal da Avenida Paulista. Combater o oligarca-corrupto (pleonasmo) é sempre algo que motiva as pessoas, contudo. Mesmo as que com rapidez passavam pela calçada apanhavam um panfleto, acenavam com a cabeça, diziam uma palavra ou outra. Havia alguns poucos capazes de parar e conversar, de fato, e alguns outros que aceitavam uma conversa em movimento, ritmada pelas passadas contra o tempo, que é dinheiro. Um sujeito mulato foi um dos que alguma atenção me deu, mesmo que breve em seu andar de quem corre. Foi incisivo. Nos poucos instantes em que consegui acompanhá-lo e dizer que pelo Fora Sarney estava ali, o tal logo chutou o pau da barraca: “Se o Sarney quiser ir pra para a casa do caraio, ele que vá!”. Confesso que fiquei meio sem reação, parado, olhando o sujeito a se distanciar rapidamente, como quem foge da casa do caraio. Vai ver que era um desiludido politicamente, isso é comum e o PSOL vai às ruas justamente para se mostrar como uma alternativa. Vai ver que era alguém com ódio sanguinário do senador Sarney, e que buscou o nome mais feio que tinha em seu vocabulário para mandá-lo à casa do vocábulo escolhido. Vai ver que era alguém com quem concordo. Concordo. Meu único medo é que a casa do caraio seja mesmo o senado brasileiro.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Inspiração

Arrisquei uma análise sobre o tema ‘inspiração’, em minha penúltima postagem. Não fui adiante, é evidente. Não estava suficientemente inspirado. Algum vestígio de inspiração eu deveria até ter — caso contrário seria incapaz de escrever uma frase sequer —, mas era tão ínfimo que fui incapaz de captá-lo em meu âmago e traduzi-lo para o papel.

Me ocorreu hoje a leitura de algumas palavras de Fernando Pessoa sobre o assunto, e por isso volto a tratar dele. Num dos fragmentos reunidos no livro “Heróstrato e a busca da imortalidade”, Pessoa diz: “(...)essa coisa peculiar chamada inspiração — um termo sem sentido e uma realidade.” E adiante arrisca uma definição, das mais abstratas, para o termo: “Não um lume que se eleva numa chama, mas um toro acendido com um lume exterior, que se torna seu — isto é a inspiração...”

Essa tentativa de definição do termo inspiração lembra-me uma pequena história, conhecida aqui por campinas. Passou-se em tempo antigo, à época do bom ensino público, numa das salas do Colégio Culto à Ciência. Lecionava nela a professora de português Quinita Sampaio, que certo dia solicitou aos estudantes redações com o tema “Inspiração”. E sucedeu à professora uma surpresa. Um de seus alunos, maroto, lhe entregou sua folha praticamente em branco. Em letras destacadas, escrevera somente duas palavras: “Sem inspiração”.

A nota atribuída a tal redação foi Dez. E muito me orgulho de ser neto dessa professora. A história que ela protagoniza é bela e bem define o termo “inspiração”. É uma definição em abstrato, é verdade, subjetiva e sublime. Não creio ser capaz, e nem devo traduzi-la nessa postagem — cabe à minha leitora e ao meu leitor tal papel. Digo somente ser uma definição quase perfeita, e por si só inspiradora — uma definição nota dez.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Sobre nomes

Talvez venha da infância minha mania de dizer mal os nomes. Quando pequenino, certa vez parei diante do jornal e, ao meu pai, li erradamente o nome de Regina Duarte, a atriz que dá medo: Regina Buarque, disse eu. Meu pai, ouvindo o erro, pedir para que eu lesse novamente o nome, que então pronunciei como Regina Buarte.

O caso acima é perdoável. Crianças costumam ser afobadas, não se concentram no que leem. Eu provavelmente prestava mais atenção no meu pai, enquanto lia, do que no próprio jornal. Ademais, na terceira tentativa, proferi com perfeição o nome da tal celebridade, o que fez de meu desempenho infantil até que razoável. O problema são os equívocos, em relação aos nomes, nos acompanharem até idade mais avançada. E isso aconteceu comigo. Não mais, é bem verdade, no caso da leitura — a ela, com o passar dos anos, passei a dar mais atenção —, mas sim com a audição, que tende cada vez mais a nos trair, com o passar dos mesmos anos.

Até pouco tempo atrás, ao ouvir o nome de Zeca Baleiro, por exemplo, jurava eu que se tratava de um artista chamado Zé Cabaleiro. Erro parecido cometia com Elba Ramalho. Pensava, na verdade, tratar-se de El Barramalho (talvez alguma espécie de vilão de filme americano, em lugar de cantora brasileira). Ney Latorraca, do mesmo modo, não escapou de minhas interpretações bizarras. Por longos anos, tive-o por uma tal Neyla Torraca, trocando-lhe impiedosamente o gênero.

O último caso que me ocorreu foi o do apresentador João Palomino, da excelente ESPN Brasil. Até dias atrás, pensava eu se tratar do apresentador João Paulo Omino, e quebrei a cara lendo seu nome. Mas esse equívoco, bem como o de minha leitura infantil de Regina Duarte, é perdoável, acredito. Afinal, convenhamos, Palomino não é lá sobrenome de se ter...