13 de abril de 2012

Um quase epitáfio

Se um dia eu estiver muito doente e sem poder falar, buscarei refúgio na escrita. Não há melhor maneira de tornar mártir um homem ao fim de sua trajetória: “que senhor admirável! Está nas últimas, mas não deixa de enxergar a beleza da vida”, ouviria certamente por aí. Mesmo nos dias de hoje, estando distante de um quadro terminal, é sempre com certa melancolia romantizada que busco encarar minhas doenças. Nesta sexta-feira pela manhã, por exemplo, ao tomar um táxi de minha casa até o hospital, fui ao longo de todo o trajeto olhando as coisas do cotidiano de maneira especial: reparava o verde das árvores e a alegria das crianças; cheguei mesmo a me emocionar com um malabarista no sinal vermelho. Sempre num incontido tom de despedida.

Um drama, evidentemente. Tão divertido quanto ter passado por surdo-mudo diante do taxista que, sem saber de minha amidalite, simplesmente não entendia o porquê de eu não me comunicar através da fala. De início, achou-me um tanto mal-educado; já ao final, coitado, desdobrava-se em mímicas dentro do carro e, vez ou outra, soltava palavras, sempre muito altas e sem nexo com o restante da frase. Foi ele quem me entregou ao hospital e às enfermeiras. Ah, as enfermeiras... Diante delas é que meu romantismo pela doença se esvai completamente. Na sala: eu, uma delas e a agulha.

Benzetacil havia sido a recomendação médica. “Será que vou passar vergonha?”, pensei de imediato. “Ó, é Benzetacil, né...”, preveniu-me a moça. Para não ter de arriar as calças, coloquei só um "pedacinho" da nádega para fora e me preparei para a agulhada. Juro que tentei relaxar. Romantizar. Mas não deu. Foram um, dois, três: três gemidos, irrefreáveis e sonoros, que soltei. Doeu muito e saí mancando.

21 de fevereiro de 2012

lemintski

lemintski

nipo-polaco-afro
do mundo
da palavra

abro o livro
e
mortemesafo
uma conquista

permanentemente
meu leminski é trotskista


o velho leon e natália em coyoacán
Paulo Leminski

desta vez não vai ter neve como em petrogrado aquele dia
o céu vai estar limpo e o sol brilhando
você dormindo e eu sonhando

nem casacos nem cossacos como em petrogrado aquele dia
apenas você nua e eu como nasci
eu dormindo e você sonhando

não vai mais ter multidões gritando como em petrogrado aquele dia
silêncio nós dois murmúrios azuis
eu e você dormindo e sonhando

nunca mais vai ter um dia como em petrogrado aquele dia
nada como um dia indo atrás do outro vindo
você e eu sonhando e dormindo

15 de janeiro de 2012

Sobre grifar um livro no ônibus



A pressa é inimiga da perfeição. Por isso, não adianta esperar o ônibus parar no ponto e, em poucos segundos, empreender a tarefa — no final das contas, a escolha acaba por ser tortuosa. É no próprio movimento do veículo que se deve executar meticulosamente cada passo: primeiramente, estendo o livro nas coxas a ponto de chapá-lo; é certo que isso lhe causa algum prejuízo à capa, mas não há o que fazer. Em seguida, concentro-me no objeto pontiagudo: firmo a ponta do grafite no patamar exato entre as duas linhas e inclino a mão numa angulatura segura. Então, no momento final, autoconfiante e sem fechar os olhos, inicio o deslizar da lapiseira quando, de repente, um solavanco. Haverá algo mais irritante do que isso?

Ilustração: Daniel Serrano

6 de janeiro de 2012

Se você fosse eu ficasse

O jeito que sai a palavra é o jeito que ela tem que estar. Uma boca pode se fazer de correta ou de preguiçosa, de altiva ou severa, mas jamais pode empunhar a caneta e lapidar o que por ela sai. Se a palavra quiser sair correta, assim sairá. Se quiser sair serena, sair cortante, assim também será. E se houver por bem desrespeitar o tempo verbal, cuspir na norma culta e desdenhar da sintaxe, quem haverá de corrigi-la? A palavra falada existe para atravessar a boca sem dó nem piedade — roçar o céu e roçar a língua, botar em movimento uma máquina de significados.

Certa vez estava num carro junto com meu irmão mais novo. O destino da viagem era de programa sério, e por isso tive a idéia de deixar o pequeno em casa para que não se incomodasse. Antes, consultei-o: quer ficar em casa? E recebi uma resposta (de amor incondicional): “se você fosse, eu ficasse”.




Áudio: Ai se sesse (Composição: Zé da Luz; Leitura: Lirinha)

23 de dezembro de 2011

Cartão de Natal para o Rodas

Querido J. G. Rodas,

Não julgo necessário o tratamento por “magnífico”. Antes de funcionário, considero-lhe um verdadeiro amigo (embora eu saiba que você prefere o Serra). Adoraria marcar um café com você no meu gabinete ainda esse ano. Mas sei que as férias lhe são um momento bastante oportuno e, por isso, faço meus votos de prosperidade através deste cartão de Natal.

Natal é momento de celebrar o nascimento do Senhor. E somente abaixo dele, Rodas, você deve estar na Universidade de São Paulo. Eu diria ser Deus no céu, eu no Palácio dos Bandeirantes e você na reitoria desocupada (digo, ex-invadida). Ah, se eu pudesse lhe dar o prêmio de “funcionário do ano”... Seu trabalho em 2011 foi um primor! Polícia Militar, expulsão de estudantes, bônus salarial para quem não fez greve. O que dizer, então, dos tapetes de seu gabinete e dos imóveis na Avenida Paulista? A Lu adorou!

Mas precisamos olhar para 2012. Sabia que eu sou fã daquela sua foto de braços cruzados na Praça do Relógio? Seu terno está bem alinhado, a gravata bem escolhida e, principalmente, seu olhar aponta para o futuro. Espero que 2012 seja para você, Rodas, um ano de muita polícia no campus. Desde os tempos da Faculdade de Direito, você e a PM fazem uma dupla inseparável. Utilize-se dos conselhos de Roberto Requião, ex-governador do Paraná — “é cadeia e cacete”, e bote a moçada da USP para correr. Espero que 2012 seja para você, Rodas, um ano de muita reforma na USP. Corte vagas na EACH, derrube barracões, faça centro de convenções. Não tenha dó dos cursos de baixa demanda social, mas também não poupe as unidades mais chiques: mande a POLI para Santos, corte disciplinas na FEA e siga em frente na empreitada contra a Biblioteca da Faculdade de Direito. Espero que 2012 seja para você, Rodas, um ano de muito brilhantismo. Aproveite as páginas da Veja, os editoriais da Folha e as manchetes do Datena — aja, como diz a moçada da USP, like a Rodas. Assim, quando em 2014 eu for eleito presidente da República, quem sabe você não me abocanha um posto no Ministério da Defesa, digo, da Educação.

Paz, saúde e autoritarismo. É isso que lhe desejo. Muito dinheiro (público) no bolso. E não deixe de tirar pelo menos uma semana de descanso nesse recesso universitário. Tome um bom vinho, leia um bom livro e escreva alguma coisa. Exercite sua mente brilhante. Só tome um cuidado, meu amigo: ouvi falar que é justamente a sua mente, ou mais especificamente a sua cabeça, o que a moçada da USP tem desejado para si no ano que vem.

Com um afetuoso abraço,

Geraldo Alckmin
Governador de São Paulo e Professor Dr. de Democracia